Militar

Operação Fênix: os detalhes do ataque colombiano que matou o líder das Farc

Cinco vezes Luis Edgar Devia, aliás Raúl Reyes, tinha escapado das tentativas das forças de segurança de “dar-lhe baixa”. Em 1º de março de 2008, a onda expansiva de uma bomba pôs fim à vida do número 2 das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Dormia profundamente. A última coisa que poderia imaginar era que o exército colombiano fosse alcançá-lo em seu santuário no Equador. Mas do outro lado da fronteira os serviços de inteligência esperavam o momento. E o momento chegou naquela madrugada de sábado.
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O general Freddy Padilla, chefe das forças armadas da Colômbia, estende uma enorme fotografia aérea da região de Piñuña Blanco. Separando os dois países, as águas avermelhadas do rio Putumayo correm em meandros. Algumas manchas amarelas rompem a monotonia verde da vegetação tropical. São “chácaras de coca” abandonadas. “Sabíamos que ele estava em seu acampamento-mãe”, explica, mostrando uma cruz vermelha no lado equatoriano, a 1.850 m da fronteira. “E tínhamos a informação de que ia manter um encontro nesse ponto, em território colombiano”.
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Desde 2002 as autoridades colombianas haviam-se proposto a decapitar a narcoguerrilha que ensangüenta o país há 40 anos. Reyes era uma prioridade. Tudo estava pronto na sexta-feira, 29 de fevereiro. “Por volta das 22h30, meia hora antes de lançar o ataque, recebemos a informação de que o senhor não viajou”, continua Padilla. O presidente Álvaro Uribe dá a luz verde. Não podem perder a oportunidade. Trocam-se as coordenadas dos aviões, que agora são N 00º23’10.66”, W076º20’59.88”: o acampamento-mãe no Equador. Dois Supertucanos decolam. A Operação Fênix está em marcha.
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O Equador denunciou que as aeronaves penetraram 10 km e bombardearam o acampamento das Farc. “Não entramos em seu espaço aéreo”, afirma o ministro da Defesa colombiano, Juan Manuel Santos. “O percurso está registrado nos sistemas de navegação. E há um enorme radar equatoriano a 46 km do lugar, que os teria detectado”. Quito alega que seu radar não estava funcionando. “Que casualidade”, ironiza Padilla, e desenha parábolas e flechas em um papel para explicar que é possível atacar sem ultrapassar a fronteira. “Sabe o que entrou? Quatro helicópteros Blackhawk com tropa de elite e 44 policiais judiciários para registrar e verificar se Reyes estava”.
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Os soldados abrem caminho com os visores noturnos até o acampamento. Um deles leva uma câmera no fuzil. Entre os escombros encontram o cadáver de um homem barbado e barrigudo. Objetivo alcançado. Um pouco mais adiante, a câmera enfoca o rosto assustado de uma mulher. Está amarrada, como as Farc costumam manter seus reféns. Tratam seu braço e colocam ao lado dela uma bandeira branca. Fazem o mesmo com duas guerrilheiras feridas. O filme mostra um acampamento estável, com infra-estrutura, desde camas até material de intendência. Os comandos encontram três computadores portáteis e dois discos rígidos externos. Também há US$ 39.900.

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Alguns tiros rompem o silêncio. Começa o combate com o anel de segurança da guerrilha. “O barbudo que queríamos já temos, ‘hermano’! Entreguem-se, não se façam matar bestamente” Os atacantes desaparecem. Os helicópteros levantam vôo com o corpo de Reyes, para evitar que as Farc desmintam sua morte. Os agentes policiais ficam resguardando o acampamento.
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À 1 da manhã Uribe telefona para seu colega Correa. Comenta que houve um confronto que ultrapassou a fronteira. Morreram um soldado e cerca de 20 guerrilheiros, entre eles Raúl Reyes. Correa se inquieta: “Onde Reyes caiu?” “Tenho quase certeza de que foi em território do Equador”, responde Uribe. “Com um certo rubor”, o colombiano admite que não disse que fora uma operação planejada. “Assumo minha responsabilidade. Mas se tivesse comunicado antes tenho certeza de que tudo teria fracassado.”
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Imediatamente depois os comandantes militares chamam seus pares equatorianos. “A reação foi solidária”, afirma Padilla. “Demos-lhes as coordenadas do lugar e lhes dissemos que tínhamos deixado 44 homens para lhes entregar tudo”.
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Mas algo se modifica. Ao meio-dia de sábado, a inteligência colombiana no Equador alerta sobre uma acalorada reunião do presidente com os chefes militares. A decisão de Correa é deter os agentes colombianos. Sem outra escapatória, os 44 homens entram pela selva, dando uma grande volta para evitar tanto o exército equatoriano quanto as Farc. Depois de 11 horas de caminhada a coluna entra na Colômbia. São 7 da manhã de domingo. A Operação Fênix terminou. E começa uma crise diplomática que, apesar das cenas de abraços, está muito longe de encerrada.